Uma reflexão sobre a seca
mai 1st, 2009 | By admin | Category: Artigos
A seca no nordeste não é nenhuma novidade. Anualmente o problema se repete em maior ou menor dimensão. O que diferencia os diversos períodos de seca que acometem a nossa região são as ações do poder público – que ocorrem de maneira esporádica, paliativa e na maioria das vezes nem ocorrem.
Em 2007, cerca de 70% dos municípios piauienses decretaram estado de emergência. O Ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, esteve em junho no Piauí e se reuniu com prefeitos e autoridades municipais no auditório da APPM (Associação Piauiense de Municípios). Prometeu que enviaria recursos para atender às populações atingidas. As providências, quando chegaram, mostraram-se extemporâneas e insuficientes.
Em São João do Piauí, a Prefeitura Municipal teve que se empenhar para minorar o sofrimento das famílias atingidas pela seca. Foi preciso direcionar esforços para garantir o atendimento emergencial às vítimas. A prefeitura distribuiu cestas e perfurou poços, mesmo dispondo de recursos em pequena monta – e nisso agiu sozinha. Para isso, tivemos que reestruturar o Programa Municipal de Aração, bem como recuar na ampliação dos benefícios em programas como João Cidadão, que oferece apoio aos adolescentes, e Felicidade Não Tem Idade, que presta assistência aos idosos. O município ainda sofre as consequências de um longo período de adversidade climática.
Como fenômeno cíclico, a seca é registrada desde o princípio da nossa colonização, ainda no século XVI. Os períodos de maior gravidade foram vivenciados a partir do século XIX. Em 1877, numa das secas mais devastadoras até então, morreram cerca de 500 mil nordestinos. O imperador dom Pedro II se compadeceu da situação e prometeu que venderia “até a última jóia da coroa” para amenizar o sofrimento dos súditos na região. Os investimentos foram pontuais e ao invés de minimizarem o impacto contribuíram para acentuá-lo, haja visto que a construção de açudes beneficiou apenas os grandes latifundiários da época, concentrando ainda mais poder na mão deles.
Até agora, o passo mais importante para combater a seca de forma efetiva foi dado pelo então presidente Juscelino Kubitschek em 15 de dezembro de 1959. Naquela data ele criou a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) com objetivo de reverter o baixo índice e desenvolvimento da região. Infelizmente, nas décadas seguintes, as ações da Sudene foram deturpadas pelos maus políticos, que fizeram aplicação indevida dos recursos destinados ao atendimento emergencial dos flagelados. As frentes de emergência foram transformadas em “frentes de engorda” – atitude protelatória e que de modo algum contribuiu para resolver o drama do nordestino.
O problema deve ser enfrentado de maneira efetiva e continuada. Medidas paliativas se provaram ineficazes e apenas agravaram o drama daqueles que vivem no semi-árido. Em outros países a questão é encarada com responsabilidade. Os governos procuram alternativas sérias. Na China, por exemplo, a seca no seu semi-árido é enfrentada com a construção de cisternas. Em nosso país, ainda engatinhamos com tal providência. Nos Estados Unidos, é por demais conhecida a característica do Estado de Nevada, formado na sua maioria por regiões desérticas. A maior parte de sua população se concentra nas cidades de Las Vegas e Reno. Os governos trataram de encontrar alternativas. O turismo foi a melhor delas – Nevada é a terceira maior economia norte-americana.
O Brasil e o Piauí precisam começar a seguir alguns exemplos positivos.
# Roberth Paes Landim
# Publicado no Jornal Meio Norte em 16/03/2008.